A Ironia Moderna
Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels, 1820-1895.
Entre os modernos, salientamos Marx e Engels como os pensadores
que exerceram a ironia ao longo de todo seu trabalho teórico. Suas
reflexões filosóficas e políticas apreenderam o escondido nas
profundezas
de estrutura do modo capitalista de produção e, ao vincular
filosofia e história, “(...)restituíram à negação seu poder
revolucionário(...)”
(LEFEBVRE, 1969, p. 25-26)
A ironia torna-se então instrumento para desmistificar o modo de
pensar alienado, a fim de descobrir a verdade subjacente à ordem
instituída,
a verdade dos oprimidos, explorados e emudecidos, que mantém
a sociedade em funcionamento com o fruto de seu trabalho. Ao
buscar “(...) no social a verdade da política e da história e nas
classes
a verdade da economia política, os dois compadres (Marx e Engels)
descobriram a ironia objetiva da história mundial, que traz aos
homens
outra coisa que eles
esperavam e queriam”. (LEFEBVRE, 1969, p. 26)
Alienação e Ironia
Ao estudar a história econômica e política da
humanidade Marx e
Engels desenvolvem o conceito de alienação. Existem
muitas formas
de alienação e uma delas é a alienação do trabalho.
Este conceito nos
permite entender como a humanidade está sujeita a uma
ironia, ou seja,
a história aparente esconde o seu real significado.
Podemos entender o conceito de alienação a partir do
conceito de
trabalho. O que é trabalho? Desde os tempos mais
remotos o ser humano
foi obrigado a buscar as condições de sobrevivência no
planeta.
Fez isso por meio de sua inteligência utilizando sua
criatividade e força
física para produzir suas condições de sobrevivência.
Foi isso que
o diferenciou dos demais animais. O trabalho é o
resultado do uso
da capacidade criativa do homem para transformar a
natureza e garantir
sua sobrevivência. Ocorre que ao trabalhar o homem
transforma
o mundo e a si. Pois ao produzir coisas para si, ele
acaba também
se produzindo naquilo que produz. Ele se reconhece
naquilo que faz,
pois tem sentido e significado pessoal e coletivo. Por
meio do trabalho
o homem busca e consegue sua identidade, pois se
reconhece naquilo
que produz.
Com a revolução industrial e o surgimento das linhas de
produção
em série há uma separação entre a criação inventiva do
homem e a
força que transforma a natureza. Os trabalhadores
produzem coisas
que não são frutos de sua capacidade criadora e
inventiva. Eles apenas
executam tarefas numa linha de produção. Quem pensou
criativamente
não realiza o que idealizou. E quem executa não pensou.
Ocorre,
portanto, a separação entre o pensar e o fazer. Quem
pensa não faz e
quem faz não idealizou o objeto que será produzido.
Pior ainda, a linha
de montagem não permite que o trabalhador domine todo o
processo
de produção, pois realiza apenas uma pequena tarefa na
linha
de montagem. Já não se reconhece mais naquilo que
produz. Se antes
ao produzir um sapato ele se reconhecia como um
sapateiro. Agora
na linha de produção ele é apenas um operário. Uma peça
na linha
de montagem. Se ele era reconhecido em sua comunidade
por aquilo
que fazia para garantir sua sobrevivência e a do grupo,
agora ele é
apenas mais um componente da linha de produção que
poderá a qualquer
momento ser substituído, descartado e em seu lugar será
colocado
outro que fará o mesmo trabalho que ele faz. Nisto se
constitui a
alienação. O ser humano se vê separado do que faz, do
que produz,
do significado daquilo que produz. Já não o representa.
O trabalho que deveria, como antes, transforma o mundo
para melhorar
as condições de vida do homem, tornasse agora um
instrumento
de dominação, de perda de sentido e significado da
vida. Torna-se
mais importante que o próprio ser humano. Torna-se
fonte de lucro e
exploração. O que é irônico nisto é que o trabalho como
força criado-
ra de transformação da natureza para garantir a liberdade do homem,
na sociedade capitalista, separa o homem do significado de sua
existência
tornando-o incapaz de reconhecer-se naquilo que faz e reconhecer
seus semelhantes. Nisto se constitui a alienação do trabalhador.
A ironia está em que a realidade apresenta dois sentidos, um
aparente
e outro real, oculto de modo astuto por um discurso político, pela
forma de pensar cotidiana, pela história linear sedimentada em
fatos
cronológicos que assinalam as vitórias da classe dominante. A
ironia
está em que os homens agem a partir de certos objetivos para
alcançar
certos fins, porém, a forma como as relações sociais se constroem e
as
ideias se produzem acabam gerando uma outra realidade, diferente do
sonho inicial que moveu os homens para a ação.
A ironia moderna destrói os novos mitos que se
sustentam na pretensão
de domínio e de poder, de uma razão capaz de
tudo explicar
e conter. Mostra o avesso das coisas, o que se
oculta por trás dos projetos
de uma sociedade tecnocrática, os paradoxos de
uma sociedade
que concentra a riqueza nas mãos de poucos e
geram as várias formas
de violência que fazem parte do nosso cotidiano
e que nos torna
cativos.
HISTÓRIA E ALIENAÇÃO
Os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem,
não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que
se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado. A tradição
de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos.
E justamente quando parecem empenhados em revolucionar-se a si e
às coisas, em criar algo que jamais existiu, precisamente nesses períodos
de crise revolucionária, os homens conjuram ansiosamente em seu auxílio
os espíritos do passado, tomando-lhes emprestado os nomes, os gritos de
guerra e as roupagens, a fim de apresentar-se nessa linguagem emprestada.
(...) Inteiramente absorta na produção da riqueza e na concorrência pacífica,
a sociedade burguesa não mais se apercebe de que fantasmas dos tempos
de Roma haviam velado seu berço. Mas por menos heróica que se mostre hoje esta sociedade, foi não
obstante necessário heroísmo, sacrifício, terror, guerra civil e batalhas de povos para torna-la uma”. realidade.
E nas tradições classicamente austeras da república romana, seus gladiadores encontraram
os ideais e as formas de arte, as ilusões de que necessitavam para esconderem de si próprios as limitações
burguesas do conteúdo de suas lutas e manterem seu entusiasmo no alto nível da grande tragédia
Debate
Responda as questões abaixo.
1. Quais os sentidos reais e os sentidos aparentes para a política e para a história construídos pela sociedade,
segundo o texto de Marx?
2. Qual a atualidade da análise de Marx para nossa sociedade?
Discuta as respostas com a turma.
As regras para o debate encontram-se nesse blog. .




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