Teoria do Conhecimento
INTRODUÇÃO
Os conteúdos aqui desenvolvidos sobre teoria do conhecimento
são recortes pontuais de uma história de abordagens do problema do
conhecimento. A Teoria do conhecimento, como o próprio nome sugere,
é uma abordagem teórica sobre o conhecimento.
É necessário, porém, ter uma noção clara sobre esse aspecto “teórico”
do saber, afinal, boa parte do que entendemos por conhecimento
não é “teoria”, mas é habilidade, hábito, destreza. Exemplo emblemático
é a habilidade de falar a língua portuguesa. Não é necessário conhecer
a teoria da Língua Portuguesa (gramática) para falar português:
basta estar em contato com o modo como os falantes da língua se comunicam.
Mas de que serve então a gramática? Sua função não é ensinar
a falar, tarefa que seria inútil, já que todos falam. A gramática ensina
a estrutura histórica da fala, como ela foi se constituindo a partir
da prática da comunicação e quais influências ela sofreu do contexto
cultural, econômico e social do povo. Não se pode dizer que, em língua,
a teoria cria a prática. Mas é certo que uma prática de comunicação
vai elaborando, historicamente, uma gramática.
O exemplo acima é um caso típico que revela as diferenças, mas
também a complementaridade entre prática e teoria, esta também chamada
análise, termo bem familiar aos alunos de português que se debatem
com as análises sintáticas. Muitas vezes a filosofia sofre graves
distorções no âmbito escolar porque não se reflete bem sobre a especificidade
do trabalho de análise. Para não se cometer injustiças com a
disciplina, seria oportuno fazer as seguintes comparações: uma gramática
é uma análise estrutural de uma língua; uma física é um mapa das
estruturas matemáticas do universo; uma filosofia é uma geografia conceitual
(Ryle) do pensamento, de suas leis, possibilidades e limites. A
escola, aliás, é um grande centro de visitação e compreensão das teorias
ou análises literárias, artísticas, científicas e filosóficas que constituem
o conhecimento humano.
Conscientes dessa característica do ensino, sobretudo no nível médio,
optamos por elaborar um material que permitisse duas coisas: em
primeiro lugar um fôlego maior no texto explicativo. Essa estratégia
tem, no entanto, um preço: limita bastante o número de filósofos abordados.
O segundo ponto é a exposição de filósofos. Os conceitos filosóficos
são produzidos historicamente. Eles são resultado do trabalho
de filósofos que, em confronto e debate com seus pares, tecem e
estruturam suas próprias redes conceituais e sistemas. Os Folhas deste
conteúdo estruturante trabalham, portanto, os temas gerais da teoria
do conhecimento, tais como verdade, ceticismo, justificação, etc., no
horizonte do pensamento de Platão, Aristóteles, Descartes, Kant, entre
outros.
O conteúdo O Problema do Conhecimento, trata da definição platônica
do conhecimento. Platão é o primeiro filósofo a examinar sistematicamente
o problema do conhecimento. Embora haja controvérsia
sobre vários pontos da noção de conhecimento em Platão, os historiadores
são consensuais sobre o fato de Platão ter delimitado um critério
formal para o saber: a razão. Dramatizando literariamente suas divergências
com sofistas célebres, como Protágoras, Platão escreveu obras
que exploraram as contradições lógicas embutidas nas teses epistemológicas
de seus contemporâneos. Aproveitando-se destas falhas, Platão
elabora uma forma de investigação filosófica que consiste na busca
de uma definição para cada classe de ser existente no mundo. Ter
conhecimento é ser capaz de atingir, mediante investigação e estudo,
o conteúdo definicional de cada ser ou objeto existente. Como nosso
objetivo neste Folhas é explicar a teoria do conhecimento, fugimos um
pouco da obra mais conhecida de Platão, República, optando por expor
o diálogo Teeteto, onde Platão desenvolve de forma sistemática suas
teses sobre o conhecimento.
O conteúdo Filosofia e Método, desenvolve um pouco da história da
teoria do conhecimento. O confronto entre Platão e Aristóteles é um
dos momentos mais importantes dessa história. Gerações inteiras de filósofos
receberam influências do retrato que Aristóteles deu do platonismo,
situação que só se inverteu muito recentemente, quando estudiosos
modernos retomaram a obra platônica, aliviando um pouco o
peso das críticas aristotélicas. Merece destaque a tentativa de explicar
um tema bem conhecido na obra de Aristóteles: a idéia de que o conhecimento
é uma marcha do particular ao geral, tese célebre que fez
muitos pensarem que Aristóteles é um empirista, o que, feitas as devidas
análises, revela-se pouco fiel ao pensamento do filósofo.
Neste conteúdo, cujo tema central é a idéia de método em filosofia,
é passagem obrigatória o pensamento de Descartes. Optamos pela
exposição de uma passagem do Discurso do Método, já que é a obra
que popularizou Descartes e fez o mundo conhecer sua metodologia
para o conhecimento. Descartes é conhecido por combater a distinção
moderna entre ciência e filosofia, aspecto que procuramos retratar no
exame de suas regras metodológicas.
O conteúdo Perspectivas do Conhecimento do ponto de vista dos autores
abordados, é o mais problemático. Temos consciência que ele
justapõe exposições acerca de Descartes, Hume e Kant, os autores que
mereceriam um livro à parte.
Retomamos Descartes como fundador da filosofia moderna do sujeito.
Com Hume, procuramos situar em sua obra a crítica ao cartesianismo
e, com Kant, fechamos a abordagem da teoria do conhecimento.
Kant é incontornável pelos inúmeros temas que formulou em
epistemologia, particularmente por ter definido o alcance do conhecimento
humano, pela importante análise das categorias que usamos para
fazer juízos epistemológicos e, por fim, por ser reconhecido como fundador da teoria do conhecimento na História Moderna.


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