Filosofia e Matemática
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Se hoje o conceito de “ângulo”, a “teoria das
proporções”, a “raiz quadrada”, os números não-inteiros ou negativos, etc., são
coisas co- muns nas aulas de matemática, isso se deve ao fato dos gregos terem
dado grande impulso na sistematização dessas fórmulas.
Entre os
gregos, a filosofia começa com uma tomada de consci- ência
sobre os limites da experiência na
obtenção do conhecimento. Essa também é a
preocupação que dá corpo ao desenvolvimento da ma- temática grega. Em outras
culturas o processo de construção do co- nhecimento matemático deu-se de
maneira diferente. Sabemos hoje que entre os babilônios e egípcios, por volta
de 3.500 a.C. já existia um primitivo sistema de escrita
numérica. Alguns historiadores consi- deram, inclusive, a África e não a Grécia
o berço da matemática, de- vido ao material encontrado que sugere que há mais
de dezenove mil anos já se pensava matematicamente. Porém, é na Grécia que se
veri- fica um surpreendente nível de abstração de problemas matemáticos,
culminando na obra do matemático Euclides, que viveu por volta do ano 300 a.C.
Os “Elementos” de Euclides comportam 465 proposições
em 13 livros que tratam de geometria, teoria dos números, irracionais e geometria do espaço.
Como
destaca o historiador da matemática Árpád Szabó, a matemá- tica pré-helênica
não chegou a desenvolver conceitos como
“propor- ção”, “demonstração”, “dedução”, “definição”, “postulado”,
“axioma”. Todos esses termos aparecem na obra de Euclides (Szabó, 1977, p. 201). Ain-
da segundo Szabó, o nível de formalização de problemas matemáticos que encontramos nos Elementos de Euclides
recebeu importante sub- sídio das discussões filosóficas da Grécia clássica,
principalmente com Platão e os matemáticos que faziam parte da academia.
Platão é sempre lembrado por
recomendar o estudo da matemáti- ca para o entendimento pleno
da filosofia. É porque a matemática exerci- ta a capacidade de abstração, sem
a qual você não entende a filosofia.
Na obra platônica
encontramos inúmeras passagens
onde problemas matemáticos são descritos
como forma de exposição de argumentos. A
passagem mais célebre é a do Mênon (82b-85e)
onde Sócrates con- duz um escravo na resolução de um problema de geometria. No
diá- logo Teeteto, sobre o qual já falamos, há o relato de outro problema que
serve para mostrar que o personagem central, Teeteto, pode ser tão bom em filosofia como é em geometria.
O tópico em questão é um exercício com números que não são
exatos, como 1,4142 e 1,7320 (raízes aproximadas de 2 e 3, respectivamente).
Hoje essas quantida- des são triviais. Mas entre os gregos a descoberta desse
tipo de medi- da causou bastante perplexidade. Os números que não possuíam raí-
zes exatas eram chamados “números irracionais”.
É
importante destacar também que na Grécia clássica a noção de número tem um
sentido bem diferente da noção de número na mate- mática moderna. Para os
gregos “dois” é a soma de duas unidades, ou
duas quantidades “discretas”, “três” é o triplo da unidade, etc. (Cf. Fowler, The Mathematics of Plato’s
Academy, 1987) A noção de “número” indica
aquilo que é ca-
paz de possuir partes. Isso
significa que a unidade (1) não é um núme-
ro. A unidade é o nome que se dá para cada parte do número quando esta é identificada até o seu limite, isto
é, quando não pode mais ser dividida. Esta noção é definida como aquilo que não
tem partes por- que, se tiver partes,
já não será mais unidade, mas dois, três, etc. Tra- ta-se de uma concepção muito diferente da
cotidiana, que vê os nú- meros como abstrações e não faz mais a
conexão com as coisas que eles representam.
Além
disso, os gregos representavam os números com figuras geo- métricas. O número 3
representava a figura do triângulo porque com três pontos num plano formamos
uma figura triangular. O número 4 o
quadrado porque com quatro pontos formamos um quadrado e as- sim sucessivamente.
Se você
encontrar pela frente obras filosóficas como a de Descar- tes, Spinoza ou
Platão, e se deparar com afirmações de que a realida- de é mais bem apreendida
por meio da geometria ou da matemática, pense nisto: antes de ser um símbolo
mental cujas seqüências e razões são sistematizadas nos livros de matemática,
os números indicam coi- sas reais existentes no mundo. De modo que se pode
olhar para tor- rões de terra e pensar em cubos, para a água e pensar em bolhas
em forma de círculos, para as folhas das árvores e pensar em triângulos ou
cones. Era mais ou menos isso que faziam os gregos quando racio- cinavam
matematicamente sobre a natureza.



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